CRÓNICA: NO CAN DOS CAMARÕES, VI DE PERTO O AMOR DE STEVE AMBRI PELOS DJURTUS

Quando vi o mister Emiliano Té convocá-lo novamente, senti que havia ali uma decisão que fazia sentido
Em janeiro de 2022, a seleção nacional marcava presença na sua terceira participação na Taça das Nações Africanas (CAN’2021), nos Camarões. A partir de Garoua, quartel-general dos Djurtus, os então comandados de Baciro Candé procuravam alcançar, pela primeira vez, a fase de mata-mata da competição.
Integrada num grupo difícil, mas não impossível, ao lado de Egito, Sudão e Nigéria, a seleção nacional entrou em campo determinada a fazer história.
No jogo inaugural, frente ao Sudão, Pelé teve nos pés a oportunidade de oferecer aos Djurtus os primeiros três pontos numa fase final da CAN, mas desperdiçou uma grande penalidade, num encontro que terminou empatado a zero.
No jogo seguinte, com o sonho ainda vivo, a Guiné-Bissau defrontou o Egito de Mohamed Salah, que vinha de uma derrota diante da Nigéria. Apesar da derrota por 1-0, considero que os Djurtus realizaram uma das melhores exibições da sua história numa fase final da CAN.
Steve Ambri foi titular e, desde os primeiros minutos, criou dificuldades à defesa egípcia. Aos 9 minutos, testou o guarda-redes adversário com um remate de meia distância e, ao lado de Mama Baldé, procurou constantemente criar desequilíbrios e rupturas no último terço.
Depois do golo de Mohamed Salah, aos 69 minutos, os Djurtus reagiram de forma impressionante. Morreto e Panutche assumiram o controlo do meio-campo e a equipa aumentou a intensidade, acreditando cada vez mais no empate.
Aos 82 minutos, chegou aquele que parecia ser o momento histórico. Mama Baldé tirou um adversário do caminho e marcou um golo espetacular, que colocaria a Guiné-Bissau novamente no jogo e, para mim, foi o melhor golo daquele torneio.
Mas o VAR entrou em ação.
O árbitro ruandês foi chamado ao monitor e, aos 84 minutos, decidiu anular o golo, provocando uma enorme revolta no estádio.
Eu estava lá.
A seleção nacional contava com menos de dez adeptos nas bancadas, mas pude testemunhar algo que nunca esquecerei: os próprios camaroneses estavam revoltados com a decisão, como se o jogo fosse deles. Vi o árbitro ser escoltado para o túnel e, antes de entrar, a segurança teve mesmo de conter alguns adeptos locais.
Vi a revolta de Panutche depois do golo de Salah.
Vi Evanildo aproximar-se de Carlos Queiroz, com lágrimas nos olhos, e dizer: “Mister, isto é uma vergonha.” Vi o mister Emiliano sem palavras na conferência de imprensa. Vi Morreto inconsolável, mesmo depois de regressarmos ao hotel da concentração.
Mas não vi a reação de Steve Ambri no estádio. Vi-a no hotel.
O jogador, que acabaria por ser substituído aos 76 minutos, chegou à receção visivelmente frustrado. Falava em francês e chutava tudo o que encontrava pelo caminho. Estava na receção do hotel quando o vi aproximar-se para buscar um sumo na geladeira.
Tentei aproximar-me para conversar com ele, mas era praticamente impossível.
Ambri estava profundamente revoltado.
Naquele momento, mais do que a frustração de um jogador que acabara de perder um jogo, vi a reação de alguém que sentia profundamente aquela camisola. Vi entrega. Vi compromisso. Vi um jogador que queria ganhar pelos Djurtus.
Depois daquele torneio, salvo alguma falha da minha memória, Steve Ambri foi deixando de aparecer nas convocatórias da seleção, apesar de ter mantido regularidade nos clubes por onde passou e de possuir características que continuam a fazer falta à equipa nacional.
Por isso, quando vi o mister Emiliano Té convocá-lo novamente, senti que havia ali uma decisão que fazia sentido.
Vi o jogador dentro de campo. Mas, sobretudo, vi o homem por trás da camisola. E, fica uma certeza: o mister Emiliano acertou em cheio ao convocar um atleta que esteve entre os melhores em campo num dos jogos mais memoráveis da história recente dos Djurtus.
Viríssimo Cabral



